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Vestígios por Patricia Toscano

Por meio de um entrelaçamento entre o real e ficcional, Tete Dias Leite apresenta a exposição ‘VESTÍGIOS’ no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro. Nessa exposição a artista exibe um corpo de trabalho criado em seu ateliê no Rio durante o período pandêmico de 2019 a 2021 e ocupa o espaço expositivo com pinturas de grandes e médios formatos. O trabalho prima pelo despertar dos sentidos, misturando aspectos técnicos da pintura clássica aos temas contemporâneos.

Tete Dias Leite é formada em Belas Artes pela UFRJ e Filosofia pela PUC-RJ, pós-graduada em pintura, restauração e conservação na Universita-Internazionale Dell’Arte, em Florença – Itália. Estudou na EAV Escola de Artes Visuais do Parque Lage durante os anos 70 e 90 com artistas como Celeida Tostes, Suzana Queiroga e Anna Bella Geiger. Além de dar aulas de pintura e aquarela, sua experiência a permitiu restaurar importantes coleções nacionais e internacionais, como a Coleção Roberto Marinho. Ao longo de sua trajetória artística, expôs em feiras, salões, galerias e instituições de arte. Suas obras fazem parte de relevantes coleções no Brasil, EUA e Canadá.

Suas pinturas apresentam tessituras históricas vividas e imaginárias através de enquadros cromáticos de luz e sombra. Paulatinamente suas pinceladas transitam na gestualidade limiar da abstração e figuração. A artista, liberta de padrões e amarras temporais e imersa de reflexões psicanalíticas jungianas, persegue a tensão emocional no desvelar de si mesma, do outro, do cotidiano e do próprio mundo, como resultado de sua mais recente produção pictórica.

A transformação do par sujeito-objeto é o Telos desse ato artístico hegeliano de Dias Leite, ou seja, a arte intenciona o delocamento do sujeito e o objeto de lugar e o coloca no lugar em que é visível aquela expressão. Ela move, não de um impacto externo que afeta o interno, e sim no sentido de que sujeito e objeto se movem juntos, uma vez que a expressão do sensível, seja com o espírito tocado.

Tal plasticidade revelada em signos, corpos e objetos metafóricos nos remetem a um jogo alusivo de desvendar o indecifrável. De uma paradoxal busca, surgem cenas e seres que emergem do cruzamento de fronteira entre a observação do ‘modelo externo’ e símbolos que fluem do in/subconsciente e evoca um olhar psíquico do público.

Do mesmo modo que suas imagens vívidas e enigmáticas eclipsa a fronteira do pensar e estabelecem diferentes narrativas, colocando em xeque os limites entre o real e ficcional, a cor em suas obras possui dupla função, entre a criação da atmosfera psíquica e o estabelecimento do espaço pictórico passíveis da nossa própria ‘anunciação’. Portanto, ‘VESTÍGIOS’ é um convite à introspectiva prática experimental lógico-reflexiva da observação. O desafio se dá em uma narrativa particular, que só se conclui no olhar do espectador.

Rio de Janeiro, 18 de maio de 2021

Patricia Toscano
Curadora e crítica de arte