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Quietudes é formada por pinturas e desenhos recentes de Esther Bonder.  São, como o título da mostra afirma, trabalhos que confrontam a voracidade em que são produzidas, difundidas e consumidas, diariamente, bilhões de informações digitais em torno das quais não há reflexão possível.

A apropriação exclusivamente mercadológica e consumista das mídias eletrônicas comumente instrumentaliza o fluxo da mera informação opinativa, eclipsando o sentido crítico e autocrítico do conhecimento, já que o obscurantismo da novidade se opõe à prática lógico-reflexiva e artística da pausa, da observação e contemplação vetada pelo frenesi cotidiano.

Quietudes é, portanto, um convite ao público para experimentar um caminho inverso: aquele suscitado pela contemplação poética do cenário em que a vida humana escorre e flui em direção ao que, aparentemente, nunca muda.

Tal contemplação pende de uma espécie de aprendizado que transcende a fronteira do pensar (ainda que Paul Valéry aponte nossas sensações como um possível “princípio e guia oculto da nossa inteligência”).

A história e a antropologia da arte nos mostram que as diferentes convenções culturais de representação da paisagem constituem diagramas em torno dos quais esse aprendizado se exercita. Desde a Renascença, no entanto, o senso comum passou a considerar que toda paisagem representa ou copia um modelo natural.

Entre os séculos XIX e XX, por sua vez, a pintura moderna passou a propor que a qualidade da obra não decorria da acuidade da verossimilhança, mas da reconstrução pictórica da realidade, nascida da fricção entre o olhar do artista e o meio visual planar da tela.

As paisagens de Esther, no entanto, podem ser remetidas à obra de Roberto Burle Marx, pintor e paisagista com quem Bonder, formada em arquitetura, conviveu e trabalhou. O conhecimento e o apreço da artista pelo mundo botânico exala desses trabalhos.

Sua pintura é quase um culto à natureza intacta. Uma paradoxal busca da pureza existencial por meio da releitura pictórica minuciosa que orienta cada obra aqui exposta. Finalmente, é importante registrar que Esther nos apresenta, ao lado de paisagens naturais, cenas urbanas noturnas que também nos convidam ao silencioso caminho da introspeção, cujos limites nos conduzem ao limiar das poéticas abstracionistas.


Fernando Cocchiarale
Patricia Toscano

Curadoria e crítica de arte

01 de setembro de 2020