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As pesquisas geométricas associadas ao rigor matemático e à simplificação da forma e cores orientam parte significativa da arte abstrata de Renzo Eusebi.

A mostra apresenta no espaço expositivo 15 obras picto-escultóricas, objetos artísticos construídos no eixo simples e complexo, compostos de elementos de madeira de formas euclidianas com planos retangulares e circunferenciais sobrepostos sequencialmente em camadas esmaltadas nas cores primárias.

Seu trabalho é o resultado de investigações reflexivas e experimentação artística das conjunções referenciais estéticas do Construtivismo, do Suprematismo de Malevitch e do Neoplasticismo de Mondrian.

A série construída não diminui o seu dado fenomenológico, isto é, a sua capacidade de, a partir de uma economia de elementos ou um mero gesto, desarticular as certezas sobre a tangibilidade do visível e inventar jogos de percepção que nos fazem mergulhar em uma imprecisão sobre os nossos sentidos.

Os instigantes objetos construídos não são facilmente identificados, pois transitam em um território que fica entre o real e o imaginário. Eusebi sustenta a natureza primária da arte: permitir que a obra seja um eterno enigma.

Nessa exposição, percebemos um engendramento de inteligência e sensibilidade. O seu fazer artístico é mais do que uma mera produção de objetos. Uma exposição é a exibição dos resultados de um processo, de um tempo e, em muitos casos, de uma vida de pesquisa. Fazer arte é expressar, através de uma linguagem, aquilo que se experimenta, é apresentar o logos como telos em uma bela retórica visual.

Acredito que um bom trabalho de arte seja como um conselho, um diálogo sugestivo com o mundo. E, por considerar fundamental que essa dialética seja uma linha de pensamento livre para deixar passar ambiguidades e imprecisões, prossigo esse discurso por uma obra que provocou um rapto fugaz à minha percepção: “Opera n.35”.

Poesia geométrica
Renzo Eusebi – Obra n35

 

O repertório da obra é geométrico, porém, uma geometria ligada aos movimentos construídos pelos deslocamentos, ora diagonais, de algumas de suas partes. A intenção poética enunciada no conjunto da obra não é a mesma daquela motivada pelos deslocamentos dos elementos e sim deslocar o observador de seu eixo para, imergindo, experienciá-la.

Ao observarmos uma de suas obras, da mesma maneira que vemos a sua exterioridade e expressão de seu pensamento plástico em seu conjunto, é possível enxergar todo o percurso de construção ocorrido em sua execução. O rigor das formas geométricas inseparáveis das poéticas construtivistas e a paleta reduzida com a predominância das cores primárias protagonizam.

As representações geométricas engendradas pela obra se alteram à medida em que o espectador fixa o olhar em determinadas partes do objeto. Ao tentar desvendar aquela composição, somos projetados a um processo de “virtualização” das imagens. O que é plano se converte em espaço; em alguns momentos, percebe-se uma obsessiva dissecação do espaço: o que é aparentemente estático se transforma em movimento ótico, o que é madeira esmaltada justaposta se torna um emaranhado de linhas, relevos e topografias que adquirem um status de potência multiplicadora.

Em alguns casos, suas obras constroem uma tridimensionalidade, criando na mente de quem as vê uma sensação de espaço e profundidade que não acontece no plano físico: dá-se no “plano perceptivo”.

Eis a densidade, coerência e transformação de um trabalho que investiga as relações não contraditórias entre arte, ciência e intuição. A Exposição condensa um conjunto de características que são muito caras a Eusebi. Dentre elas, destaco a artesania, isto é, uma produção feita pelo próprio artista que, por sua vez, merece um cuidado e tempo muito especiais.

Segmentadas em múltiplos módulos que se justapõem, observamos nas obras a sutileza com que Renzo Eusebi parece pousar as diversas lâminas de formas geométricas. Sua obra cria forma no espaço, além de expandir as fronteiras entre pintura e escultura, cria fusões. Nesse caso, é a condição da potencialização de um corpo-lúdico em detrimento de um corpo-máquina. Do gozo em detrimento da função.

Há em toda a sua obra, a clareza de uma pesquisa comprometida com um público. Somos agentes de transformação da obra, ao mesmo tempo em que ela investe sobre nós. Seu trabalho está comprometido com o real e o imaginário. Vide a forma como é construído e se coloca no mundo.

O resultado final é um conjunto de obras palpáveis e visualmente instigantes, por desestabilizarem o olhar do espectador. São aparições visuais que desafiam a percepção e que igualmente provocam a vontade de tocá-las, evidenciada na transformação do abstrato ideado em objeto real construído. Ao mesmo tempo que são “elementos intrínsecos”, ao torná-los extrínsecos, nos penetram e nos alteram.