Podemos ajudar?

O Negócio da alma é a alma do negócio?

O Negócio da Alma reúne pesquisas artísticas de Antonio Bokel, Antonio Tebyriçá, Clarice Gonçalves, Catarina Lins, Douglas Knesse, Elvis Almeida, Eduardo Gonzales, Felipe Fernandes, Guilherme Gafi, João Fujioka, João Maciel, João Sanchez, Juarez Siqueira, Leonardo Perin, Marcelo Pacheco, Juan Narowé, Pedro Sanchez, Rene Sinkjaer e Vera Brito. O conjunto de 19 artistas, vários autodidatas, explora elementos intrínsecos e extrínsecos ao cotidiano do “Eu, do Outro e do Todo”. Em suas experimentações artísticas, quer sejam elas abstratas ou figurativas, certa ingenuidade parece conferir forma a objetos plenos de retórica, comprometidos com o autêntico, por onde a alma se eleva, gradativamente, das feições sensíveis às realidades inteligíveis.

Embora possuam processos diferentes, suas poéticas convergem na artesania, no despretensioso e espontâneo, na intuitiva e genuína forma simples de fazer arte. Seria difícil destacar trabalhos ou mesmo artistas sem cometer injustiça, portanto, o conjunto será o objeto de uma reflexão mais cuidadosa.

Concebida sem influencias mercadológicas, a mostra apresenta ao público trabalhos de artistas de diferentes nacionalidades, cultura e background, espacializados por quase todo terceiro andar do Centro Cultural dos Correios. A edição de montagem e acompanhamento curatorial organizada por Sonia Salcedo del Castillo, cria uma atmosfera de harmonia no projeto idealizado por Antonio Bokel, ao propor um diálogo reflexivo atemporal entre figuração e abstração intercalando expressões e formas.

Nessa dialética plural, em cujo corpo predomina a pintura, encontramos indícios rústicos no aspecto de alguns objetos apresentados. Entretanto, é possível desfrutar essenciais da forma pura nessas obras. Em outras, certo frescor inovativo de arquétipos visuais. Nas obras, elementos plácidos de tons ecoam profusão de cores, pulsões do belo e do quimérico ativam o cubo branco e capturam o olhar.

Não se trata de jogar com oposições, mas de produzir composições plásticas, técnicas, agentes, etc. Por isso mesmo, tais práticas não se definem pela adesão a um meio específico de expressão como escultura, pintura, desenho ou gravura: preferem trabalhar com todas estas, usando diferentes materiais e recursos como madeira, tela, tecido, papel, metal, carvão, etc. Os artistas mobilizam e transitam por vários suportes e linguagens para dar forma às suas inquietações, onde nem tudo é o que parece ser.

As obras flertam com o que há de estranho e, ao mesmo tempo, confortavelmente familiar; ou o que há de mais sedutor e também angustiante. As imagens se completam no encontro entre “o olho e o espírito”. Alguns trabalhos reforçam a ideia de que a arte trata de um mistério que é atemporal, eterno e ao qual não fomos e nunca seremos apresentados por completo. Há algo de muito sagrado entre gestos de traços e pinceladas profanas. Basta abrirmos nossos olhos e espírito para a arte.

Esse discurso não dispensa pesquisas referenciais na esfera da história da arte, que nos leva ao grupo CoBrA do Karel Appel, a Baselitz e outros; parte da pintura do conjunto flui de uma espontaneidade baseada na desfiguração colorida das figuras, com frequência intencional e caricata e carregada de ironia e provocação.

Finalizo minha reflexão e avalio critica e textualmente o conjunto que aqui temos reunido, remetendo a passagens filosóficas relacionadas a ideia de alma como pluralidade do sujeito e estrutura social de impulsos e afetos. A multiplicidade de forças do mundo é a mesma pluralidade de forças internas que movem o ser humano. A multiplicidade de quereres não permite pensar apenas em um indivíduo.

Fazendo minhas as palavras de Nietzsche: “Queremos sempre no plural! A ideia de várias almas é deslumbrante, poética demais para não ser filosofia.” Assim concluo: Arte com alma é o grande negócio! O Negócio da Alma é um corpo plural que oxigena com arte a alma do observador, que a experiencia.

Patricia Toscano
Curadora e crítica de arte
Rio de Janeiro, 17 de julho de 2019