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O assombro do tempo nas obras de Sonia Gomes

A mineira Sonia Gomes é uma das grandes artistas do nosso tempo, sua obra remete à memória e ao tempo que desgasta naturalmente a vida. De aspecto pitoresco, sua arte aborda a cultura popular afro-brasileira através de um trabalho manual fantástico.

Sonia nasceu em Caetanópolis, no ano de 1948. A cidade é detentora de uma grande produção têxtil, e isso influenciou a artista desde cedo trabalhar com bordados e afins. Ela passou a investir na personalização visual de roupas e acessórios, e percebeu a relação de seu ofício com a arte contemporânea após viajar para os Estados Unidos.

O assombro do tempo nas obras de Sonia Gomes
Sem título, da série Risco do Tempo (2012) Caneta permanente, caneta esferográfica e grafite sobre papel de apropriação. 56 X 76cm

 

Ela se formou em Direito, mas paralelamente passou a fazer disciplinas de arte na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), se dedicando também à produção artística.

Em 1994, Sonia começa e expor obras abstratas e dez anos depois, tem sua primeira grande exposição em Belo Horizonte, chamada de ‘Objetos’.

‘Minha ligação com a arte vem desde sempre. Nasceu comigo. Eu não sabia que era arte, mas depois que eu descobri’

O tecido usado no trabalho de Sonia evoca apenas um vislumbre de sua função e do que uma hora ele foi. A artista recupera elementos esfacelados e os dá uma sobrevida, fazendo com que tenham uma nova sina, um novo propósito. Além disso, ao ver as obras de Gomes, podemos evocar a ausência de algo, a falta dos que outrora estiveram presentes. Resumidamente, a obra da artista nos assombra com o poder do tempo.

O assombro do tempo nas obras de Sonia Gomes
Mãos de Ouro (2008). Grafite, caneta, costura, amarrações, tecidos e rendas variadas sobre papel. 47 X 37cm

Por demonstrar a cultura popular como a folia de reis, o candomblé e o catolicismo mágico nos elementos e na finalidade de sua obra, Sonia diz que sua arte transita entre o popular e o erudito: ‘Meu trabalho é como o Brasil: tem um lado popular e outro erudito. Transitamos muito bem entre esses dois aspectos’, afirma.

Gomes passou a ser reconhecida nacional e internacionalmente a partir de 2013, quando começou a expor seu trabalho pelo mundo. Ela passou por, por exemplo, a Art & Textiles, na Alemanha (2013), Museum of Modern Art Aalborg, Dinamarca (2013), The National Museum of Women in the Arts, Washington, EUA (2017) e a Bienal de Artes Visuais do Mercosul (2018). Além disso, foi a única representante brasileira na famosa Bienal de Veneza, em 2015.

O assombro do tempo nas obras de Sonia Gomes
Sonia Gomes, Por Que?, 2009/2010, tecnica mista, acrílica, aquarela, nankin, linha e tecido sobre tela, 80 × 120 cm

No entanto, o reconhecimento de artistas no geral, principalmente a produção feminina negra, é muito custoso. Discutir temas como raça, gênero e sociedade é uma missão complicada no Brasil.

Os elementos da obra de Sonia são reutilizados, sempre marcados pela memória daqueles que um dia os possuíram. De certa forma, são partes que parecem se recusar a morrer.

2 Replies em O assombro do tempo nas obras de Sonia Gomes

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