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As pinturas de Tete Dias Leite estabelecem uma espécie de interseção entre o real e o onírico, entre o banal e o sublime. Embora uma artista liberta de amarras temporais apresente vestígios de um labor realístico em suas obras, ela persegue uma tensão emocional no resultado. O trabalho prima pelo despertar dos sentidos, misturando aspectos técnicos da pintura clássica aos temas contemporâneos.

A busca de romper a realidade interpondo a percepção sensorial em contraponto ao mimetismo acadêmico se apresenta como característica marcante dentro de sua mais recente produção plástica. Dias Leite expressa o sensível com tessituras históricas vividas e imaginárias através de enquadros cromáticos de luz e sombra. Paulatinamente, a interioridade e a subjetividade vão se revelando através de suas pinceladas justapostas, em um movimento de compreensão e revelação de si, do outro, do cotidiano e do próprio mundo.

Tal plasticidade repleta de signos, personagens e seres metafóricos nos remete a um jogo alusivo de desvendar o indecifrável. Cruza a fronteira entre a observação do “modelo externo” e símbolos que fluem do in/subconsciente. De uma paradoxal busca existencial humana, surgem cenas de um cerebral fazer pictórico que evocam o olhar psíquico de quem o observa.

Com suas raízes pictóricas, a artista nos remete a Carl Jung: “Qualquer árvore que queira tocar os céus, precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos.”, cuja introspeção de sentidos nos altera nas vísceras de nossas raízes ancestrais. A inevitável contemplação poética frui, eclipsa a fronteira do pensar e provoca indizíveis (re)ações.

A transformação do par sujeito-objeto é o Telos desse ato, ou seja, a arte desloca o sujeito e o objeto de lugar e coloca no lugar em que é visível aquela expressão. Ela move, não de um impacto externo que afeta o interno, e sim no sentido de que sujeito e objeto se movem juntos, uma vez que a expressão do sensível seja com o espírito tocado. Seu trabalho é, portanto, um convite singular à silenciosa prática experimental lógico-reflexiva da observação.

Suas obras permanecem envolventes, repletas de mistérios e silêncios, sem sonoridade e imutáveis, imersas de desejo de um diálogo íntimo que nos conceda percepções particulares, passíveis de enxergarmos nossa própria “anunciação” na pluralidade interpretativa, prazer, sede, completude ou o que instigar a emoção. O desafio se dá em uma narrativa isolada, que só poderá ser concluída no aprofundamento do olhar do espectador.

Patricia Toscano
Curadora e Crítica de Arte
Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2020