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Galeria Kogan Amaro exibe ‘A Beautiful Image’, individual de Bruno Miguel

A Galeria Kogan Amaro exibe ‘A Beautiful Image‘, individual de Bruno Miguel, com texto crítico de Ulisses Carrilho entre 05 de junho e 17 de julho de 2021. Palavras ou imagens são sempre uma provocação. O inconsciente nunca cessa de se autoinscrever: o que é fabuloso e imaginado surge a cada salto do indivíduo. Por outro lado, a realidade não se deixa inscrever – ela foge, escapa e surge no mundo. É conspícuo na vida material, aparecendo como um fenômeno percebido. 

Entre as fichas empregadas por Bruno Miguel em suas pinturas e a abundância de cor, tinta e objetos na superfície de suas telas, há também uma dupla incidência: reconhecemos flagrantemente um artista que apresenta hipóteses para a história da pintura e, ao mesmo tempo tempo, um regime de imagem que não se desenvolve apenas em torno do objeto de arte, mas no campo ampliado das visualidades. Tomado emprestado da inscrição no quadro de entrada da exposição, o título da mostra deixa clara essa conexão:

Embora em sua obra o artista gire em torno de referências biográficas, não há intenção memorial para isso, já que não resulta de um desejo de refletir sobre o mundo privado de um indivíduo. Parece suscitar o fato de que a própria matéria primordial da arte é formada em um salto de uma imagem criada para uma imagem percebida. Bruno Miguel é professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage há mais de uma década e é notório o interesse em fazer uma pesquisa poética que explore o desenvolvimento de um determinado olhar: o artista busca refinar a sensibilidade em relação às imagens prontas . Em outra ocasião, seria interessante examinar essa hipótese tendo em vista sua série “Marina Ajuda Bruno”, que merece atenção e uma oportunidade de ser exibida, pois traz à tona uma questão urgente que redefine não só a ideia de função na arte. , mas também o controverso conceito de qualidade. Diante de uma sociedade corrompida pela superabundância, saturação, espetáculo e pela ideia excludente e elitista de um “bom gosto” a priori, as visualidades não refinadas pelo sistema da arte mereceriam a menor chance de pesquisa?

A vontade de se dirigir a um mundo que lhe é estranho é marcante na retórica do artista: as imagens que o cercam, imagens de objetos que coleciona, mas que estão arraigadas em seu corpo. Essas imagens são convocadas pelo artista a partir do mero interesse em representá-las em bases pictóricas. Através da pintura, Bruno Miguel explora as imagens de um mundo danificado pela desintegração; acelerado pelo entretenimento; enganados pela promessa da globalização.

Muitos dos objetos embutidos nas camadas de tinta sobre tela e nas resinas que aludem aos diversos designs de plástico bolha são objetos de consumo: remendos comprados indiscriminadamente a granel em plataformas de compras na web. Usados ​​nas forças armadas para fins de guerra desde 1800 na Inglaterra, os patches começaram a se tornar populares na década de 1930, como uma forma de identificar exércitos e patentes – questões relacionadas a um sentimento de pertencimento. No final dos anos 1950 e início dos 1960, eles foram assumidos por “adolescentes rebeldes” na esteira da cena MOD, originada em Londres, Inglaterra. O símbolo escolhido pelos mods, um alvo, tem sua origem em um símbolo usado em aviões da RAF, braço do serviço aéreo das forças armadas do Reino Unido na Segunda Guerra Mundial. E, assim, foram incluídos no código de vestimenta do rock n ‘roll, por meio do qual foram disseminados na cultura pop. Patches logo se tornou um canal para expressar idéias, visões políticas e amor por certas bandas. Esses pequenos objetos são uma espécie de crista operada culturalmente, criando um sentimento de pertencimento e designando ou confrontando identificações. Esses ícones são parte fundamental das obras exibidas na mostra.

No ensaio de Susan Sontag “Uma Cultura e a Nova Sensibilidade”, do seu livro “Contra a Interpretação”, encontro uma reflexão sobre a profusão destes caminhos ditos simultâneos que dão corpo às pinturas de Bruno Miguel. A arte é entendida como um instrumento de modificação da consciência e organização de novos modos de sensibilidade. Segundo o autor, experimentaríamos uma pressão sufocante de interpretação que aniquila nossa sensibilidade por meio de uma perspectiva causal, lógica, reacionária e interpretativa do mundo. Essa ideia cientificista, segundo algumas hipóteses de Sontag, se apoderou do campo artístico-literário nos tempos modernos. Como resistir à lógica e apenas confiar no que se sente diante de um estímulo? É possível superar o conceito de sabor e apreciar o que é visto, percebido e sentido pelo corpo?

Na série de pinturas aqui expostas, a artista mostra campos de cores repletos de referências a um mundo que, embora não seja alheio à arte, muitas vezes é subestimado pelos artistas em nome de uma chamada sofisticação e requinte intelectual. Felizmente, a pintura de Bruno Miguel resiste de forma insubordinada a essa ideia, preparando o terreno para a construção de outros cenários, antes sugeridos pelos teóricos da cultura: a ideia de uma cultura mais generosa, imbuída de complexidade e quase binária. As muitas manifestações de cor e forma irrompem da tela sem intenção de confirmar a tradição, mas para atualizar as questões então formuladas. Porém, não é como se suas estratégias artísticas desconfiassem da pintura. Em vez disso, o artista confia ostensivamente neste procedimento.

Não é à toa que este ensaio começa com a inscrição e irrupção do ininscritível. Com as inscrições pintadas pelo artista, ele cria imagens. As palavras são apresentadas como elementos visuais que integram fundamentalmente o layout das obras. Na década de 1960, Sontag colaborou para a compreensão de que a arte criada naquela época empregava elementos produzidos pela sociedade de consumo não como resultado do interesse visual, mas principalmente para criar a oportunidade de nós, espectadores, redefinirmos nossos próprios critérios pré-concebidos sobre o que poderia ou não ser considerado como arte. Não há outra maneira de terminar este ensaio: o que é uma bela imagem ?

 

Texto de Ulisses Carrilho

 

Galeria Kogan Amaro exibe 'A Beautiful Image', individual de Bruno MiguelGaleria Kogan Amaro exibe 'A Beautiful Image', individual de Bruno Miguel

 

 

Galeria Kogan Amaro exibe 'A Beautiful Image', individual de Bruno Miguel

 

Galeria Kogan Amaro exibe 'A Beautiful Image', individual de Bruno Miguel

 

Galeria Kogan Amaro exibe 'A Beautiful Image', individual de Bruno Miguel

 

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Galeria Kogan Amaro exibe 'A Beautiful Image', individual de Bruno Miguel
Ulisses Carrilho

 

 

Sobre o artista

Bruno desenvolve desde 2004 a sua investigação em torno da construção e representação da paisagem na contemporaneidade, atuando em várias linguagens, elege a pintura como tema central da sua obsessiva rotina de produção. Nos últimos anos, as questões sobre a paisagem começaram a dar lugar a uma maior investigação da pintura como linguagem e suas interfaces no cotidiano contemporâneo. Mas, acima de qualquer retórica que Bruno possa desenvolver para justificar suas escolhas, a verdadeira força de sua pesquisa está no trabalho. Não no trabalho em si, mas no labor do atelier, onde a sua curiosidade e inquietação mantêm a sua pintura em transformação. Onde suas compulsões procuram erros ansiosos por soluções imprevisíveis, tão generosas que se escondem atrás do deslumbramento banal das imagens fáceis. Sua pesquisa é uma espécie de pós-pop periférico, sempre relacionando alta e baixa cultura. Uma maquiagem vulgar e exuberante que disfarça superficialmente sua condição de eterna busca pela beleza. Não de pintura, mas de pintura.

 

Galeria Kogan Amaro exibe 'A Beautiful Image', individual de Bruno Miguel
Bruno Miguel