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Diversidade e contaminação

Influenciada pela estética construtivista, a exposição “DIVERSIDADE E CONTAMINAÇÃO” exibe a riqueza artística pela multiplicidade de elementos, intersecções de técnicas, diversificação de texturas, fragmentação de elementos e profusões volumétricas. Propõe a provocação dos sentidos e percepções ao olhar do observador sobre a infinitude dos objetos e suas possibilidades cromáticas e confluências poéticas.

Nesta mostra testemunhamos a comunhão entre a abstração geométrica e a organicidade. A materialidade de natureza orgânico-industrial imprime sentidos e, nesta instigante dialética construtiva, o paradoxo ressignifica e constitui uma experiência ótica sensorial transgressora.

Em face da diversidade de meios e materiais presentes na poética das produções contemporâneas dos artistas, torna-se relevante estabelecer uma abordagem sobre as diversidades e contaminações presentes na arte contemporânea. Uma vez que a ideia de arte contaminada ajuda a pensar a prática que estamos desenvolvendo, partimos de uma reflexão crítica que sugere uma obra contaminada pelo olhar, pelo corpo, pelo índice da autoria, pela profundidade e impulsos emocionais concebida como ponto de intersecção coeficiente entre as diversidades poéticas encontradas nas abstrações inabituais.

Nesse mesmo sentido, a produção artística contemporânea aceita as contaminações provocadas pelas coexistências de elementos diferentes e opostos que dialogam entre si. A arte é um campo de experimentações que mistura matéria e espírito, inspirações e aspiração, memória, passado e presente, racionalizações e sensorialidades, além de artesania.

A partir da observação crítica, é possível apontar uma prática artística mútua que se contamina na fronteira de suas órbitas culturais e universos artísticos distintos, permitindo que a unimultiplicidade de elementos e experienciais sejam os condutores da pluralidade poética. Logo, a contaminação discute seus limites, sentidos e força transformadora.

Levando em conta o poder que a arte exerce sobre as integrações humanas, é apresentada uma dualidade que consubstancia e converge na singularidade de seus discursos de interioridade.

Diante de uma bela contaminação poética de diversificados elementos plásticos aqui ressignificados pela adição, acumulação e costura de cores, formas, texturas, reflexões e sentimentos que nos deslocam de um lugar comum, instaurando novas histórias visuais, percorremos surpreendentes experiências perceptivas. Eusebi e Amaral nos convidam à fruição de suas vivências sensíveis e suas múltiplas possibilidades compositivas geram novos e marcantes campos sensoriais para a plenitude do olhar.

 

RENZO EUSEBI

Artista de sensibilidade construtiva, Renzo Eusebi alinha o seu trabalho à arte contemporânea ao potencializar uma linguagem pautada na investigação espacial e na exploração dos movimentos por intermédio de formas dispostas em um jogo cromático desafiador de derivações geométricas.

Ao longo dos últimos anos de sua trajetória artística, a produção de Eusebi percorreu um caminho estético fértil e transformador, tendo a poética construtiva como fio condutor dos trabalhos. Percebe-se em seu olhar referências que dialogam com o suprematismo de Malevich, neoplasticismo de Mondrian e o construtivismo de Tatlin. O artista marca seu território pela abstração geométrica aliada às cores primárias como elementos estruturantes e ordenadores do seu trabalho, acumula indagações e soma possibilidades pelo repetido tratamento da superfície da obra.

Os abreviados e essenciais componentes de sua narrativa são dispostos criando impetuosos agrupamentos discursivos plásticos e inquietos contrapontos pictóricos visuais. Ao fazer um uso limítrofe de materiais e suportes nas suas experimentações de formas expressivas, o artista revela a riqueza e amplitude lúdica de sua linguagem plástica, na qual dimensões e possibilidades quase inexploradas entre o sensível e a matéria consolidam uma estética diferenciada, que confere uma grandiosidade lírica silenciosa às dimensionalidades com as quais trabalha.

Amplia a latitude de seu movimento pela adição e junção; mescla elementos antagônicos no seu corpo de trabalho e instiga o campo visual através de um ritmo que, se nutrido pela relação entre forma, luz, sombra e cor, provoca incessantes deslocamentos oníricos de um ir e vir, uma meticulosa experiência imersiva que reativam outros territórios no fluxo do seu trabalho artístico.

O ponto de passagem da bidimensionalidade para a tridimensionalidade surge pela volumetria das obras. Os quadros são concebidos como uma arquitetura de elementos geométricos em suas múltiplas e domáveis possibilidades compositivas. Os volumes geométricos, modulados e seriais parecem ter uma questão manancial: um conjunto de elementos abstratos combinados, sistematicamente repetidos, revestidos com variações cromáticas primárias infinitas sobre as mesmas construções básicas que apresentam combinações visuais surpreendentes.

Eusebi consolida um interesse pela criação de experiências que evoquem um tempo particular no observador. Esse procedimento preciso, porém sutil, pelo próprio manuseio artesanal, instaura um equilíbrio, domina e potencializa uma luminosidade mais indeterminada e parece encontrar uma inesperada serenidade, como se estivesse ali, aquietando a inquietude da alma e nos instiga a um irresistível mergulho na atmosfera de suas belas partituras visuais.

 

MARCUS AMARAL

Com um olhar poético sensível sobre fragmentos de objetos inutilizados, Marcus Amaral conecta a engenharia a belas artes, rompe o tradicionalismo deslocando matérias-primas e ferramentais de seu habitat usual para produzir ricas e ressignificadas composições artísticas, dando vida às instigantes telas-esculturas.

Elementos como madeira, linhas, ferro, carvão, papel, jornal e revista são reunidos para criar uma série de arranjos tridimensionais com texturas e impressões sensoriais que desafiam o espectador a repensar sentidos e atribuição dos objetos e infinitude das formas com uma visão artística que contraria a realidade.

Através da evidente influência estética da Geração 80, o artista apresenta como resultado de sua pesquisa artística, obras inéditas que tensionam a relação entre a razão e os sentidos.

O processo produtivo de Amaral vai além de uma intensidade comum. Ele queima, cola, atravessa, corta, vaza, rasura, satura e sutura não somente o objeto, incinera o comum em contraponto a uma consagração de discurso em suas obras. O fogo de Amaral desconstrói e reconstrói, mas não destrói. É elemento ígneo constante no processo de conceber a vida de suas obras e ajudam o artista a extrair o vigor do potencial plástico da materialidade inusitada, nas quais não costumamos enxergar valor em seus atributos estéticos, como papel e madeira queimada. O dom da engenhosidade e observação proporciona um olhar e sentir constante inspiracional com a não obviedade.

Ao longo de sua trajetória, o artista integra a experimentação contínua e incrementa o fazer ingênuo rudimentar a inovações tecnológicas em uma produção rápida, que valorizava os processos artísticos e os acabamentos rústicos. Sua experimentação subversiva abrange imagens, técnicas, gestos, formas, cores, bi e tridimensionalidades, além de suportes diversificados. Influenciou a produção artística brasileira de forma cabal e definitiva, abrindo caminhos para a nossa contemporaneidade.

Pautadas no princípio de que qualquer material pode ser incorporado a uma obra, as colagens são adaptadas à técnica peculiar do artista dando vida e novo sentido a assemblages repletos de originalidade. O observador desfruta de uma bela retórica visual.

 

Patricia Toscano
Curadora e Crítica de Arte