Podemos ajudar?

Claudia Andujar: Arte política como objeto de partilha

As considerações feitas neste texto são referentes à exposição Claudia Andujar: A luta Yanonami, exposta no Instituto Moreira Sales. A mostra exibe a produção da fotógrafa e ativista que se dedicou a registrar e defender os direitos do povo indígena Yanonami, ameaçado de extinção.

Inicialmente, a exposição mostra os registros de Andujar de forma cronológica, sendo a primeira parte referente às fotografias do período entre 1971 a 1977, momento no qual a fotógrafa trabalha para a revista Realidade e tem o primeiro contato com os Yanonami na bacia do rio Catrimani, em Roraima. Neste primeiro contato com este grupo indígena, Andujar busca estabelecer contato por meio da fotografia, traduzir o que ela está vendo e sentindo por meio de seus registros. Aos poucos, desaparecia o discurso jornalístico nessas imagens e para dar espaço a um discurso artístico. Nestas primeiras fotos pode-se notar uma intimidade cada vez maior com os Yanonami, apresentando por meio desses registros sua felicidade e serenidade, suas formas e belezas, capaz de criar uma sensibilização e empatia com um povo tão distante de nós.

A próxima sala apresenta fotografias que Andujar realizou após um estudo e processo para realizar registro com baixa luminosidade dos índios, o que resultou em imagens naturais, com faces serenas e desmarcaradas, carregando um significado verdadeiro ao apresentar os índios e sua identidade, de forma sutil. Até este momento na exposição algo me intrigava, que era o fato dos discursos e narrativas estarem voltados principalmente para a fotógrafa, e não nos índios, estes atuando muito das vezes como atores coadjuvantes diante do protagonismo da fotógrafa no seu registro. Contudo, a proposta de fornecer papéis para os índios para que narrassem sua própria história foi algo essencial para mostrar a presença desse povo e o compromisso ético de Andujar com eles, de registrar e respeitar sua cultura e não tentar reinventa-la.

Seguindo a sequência expográfica, chegamos na sessão onde se encontram os registros referentes às cerimonias de celebração e rituais xamanísticos. Como a primeira sessão da mostra, este conjunto de fotos me impressionou pela originalidade e capacidade de criar um caráter onírico e surreal nas obras, buscando representar uma dimensão espiritual, muito presente na vida deste grupo. Imagens abstratas, fotos com a presença de ruídos, desfocadas, com fontes de luz, buscam representar certos aspectos imateriais da cultura Yanonami de forma muito bem-sucedida por parte da fotógrafa.

A partir desse momento, a exposição busca apresentar um conjunto de registros com um caráter político, onde Andujar busca por meio da fotografia proteger os Yanonami, que entre os anos 1970 e 1980, corria o risco de extinto, frente as doenças, violência e poluição causadas pelo garimpo e pelos planos de desenvolvimento da Amazônia durante o governo militar. Militância que atribui um caráter político de sua arte, que ultrapassa o sentido da política partidária, da administração do estado, levando a uma esfera de inclusão, respeito aos indivíduos e de suas liberdades.

Por meio dos retratos de expedição médica, reconhecimento e cadastro dos Yanonami, pode-se notar a presença e os efeitos de outra cultura neste povo, um processo civilizatório que traz consequências negativas para este povo. Há uma semelhança nessas fotos com o holocausto, evento em que a fotografa presenciou em sua infância e nos faz questionar até que ponto esse progresso civilizatório é benéfico para a vida, a cultura e a integridade de povos como os Yanonami. Um dos aspectos mais importantes que são levantados nessa exposição com muito êxito é como esses problemas de décadas passadas, permanece atual diante da renovação das ameaças do governo eleito em rever demarcações de terras indígenas e permitir a extração de minérios destas regiões.

Por fim, a exibição termina com a instalação Genocídio Yanonami: morte do Brasil (1989/2018), manifesto audiovisual que retoma a produção de Andujar, incluindo fotos tiradas entre 1972 e 1984. É evidente a mudança no semblante do índio do começo ao fim da exposição. O fim da mostra pode nos trazer a consciência de como a presença de outra cultura pode afetar negativamente outro grupo pacífico, que convive com alegria, costumes e práticas que carregam um caráter humano, em conexão com a natureza, digno de respeito, empatia e compromisso de preservação. A exposição de Andujar nos permite ver nos Yanonami um reflexo de nós mesmos, nossas raízes e identidades como povo brasileiro, mostra como um projeto artístico torna-se uma luta política, sem discursos, narrativas e relações partidárias na relação com o político, mas sim, arte política como objeto de partilha.