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‘A besta-fera antropófaga brasileira, ininteligível e em constante metamorfose’, por Gonca

Você é o que você come, o que você come te transforma. O Brasil é Abaporu, o Brasil é Macunaíma, o Brasil é o homem que come gente, literal e metaforicamente. Tarsila do Amaral não sabia, ou talvez soubesse, da dimensão que ‘Abaporu’ tomaria quando a produziu em 1928 como presente de aniversário para Oswald de Andrade.

O nome da obra vem do tupi-guarani e significa “homem que come gente” (canibal ou antropófago), é a união dos termos aba (homem), pora (gente) e ú (comer). Num Brasil que àquela época tentava consolidar-se como uma nação e cultura própria, o conceito do Manifesto Antropofágico ampliou essa sociedade

Embora promissoras ideias começassem a despontar nos artistas brasileiros desde os anos 1910, uma concepção mais consolidada aconteceu com a vinda do suíço/francês Blaise Cendrars (1887-1961) em 1924, depois da Semana de Arte Moderna. Mário, Drummond, Tarsila do Amaral e Oswald acompanhavam Cendrars pela estrada de Minas, pedregosa, quando juntos tomaram consciência do barroco.

 

'A besta-fera antropófaga brasileira, ininteligível e em constante metamorfose', por Gonca
Abaporu, de Tarsila do Amaral

 

 

Com o Manifesto Antropófago, Oswald cimentava a ideia de antropofagia. O Brasil não deveria simplesmente imitar a cultura estrangeira, muito menos negá-la, mas sim usá-la para transformar-se em algo novo. Degluti-la, mastigá-la, lamber a língua. O Banquete Antropofágico indígena serviu de base para essa ideia, pois em atitude de respeito, devorava-se o ‘inimigo’ ou o ‘estrangeiro’ a fim de absorver sua força, habilidade e vida.

Contra Graça Aranha, em Espírito moderno, de 1925, que chegou a afirmar: “O Brasil não recebeu nenhuma herança estética dos seus primitivos habitantes, míseros selvagens rudimentares. Toda a cultura veio dos fundadores europeus”.

O brasileiro é como Caliban, o homem de dois mundos, dominado de repente por Próspero, ele viu-se fadado a escravidão, até que por meio do aprendizado da língua e da cultura estrangeira, Caliban metamorfoseia-se em alguém novo, ciente e consciente de outro ponto de vista. Aliás, esta é uma ideia mais abrangente e fidedigna da antropofagia: ver o mundo pelos olhos do outro. Mais importante do que usurpar de novas habilidades e ideias, é enxergar as coisas por meio de uma perspectiva diferente.

A antropofagia brasileira se difere da deglutição pura. No caso de Caliban, Próspero reconhece-o como inferior, e tenta impor-se sobre ele. A cultura eurocêntrica/estadunidense faz algo parecido, no entanto o conceito antropofágico brasileiro acata essa cultura não como superior ou inferior, mas diferente. Desde a colonização, essa recusa pela dominação estrangeira reflete o povo brasileiro. Não foram os portugueses que passaram pela metamorfose, foram os índios.

O Brasil antropófago pode ser visto na visceralidade de Adriana Varejão, como em ‘Pele Tatuada à Moda de Azulejaria (1995)’, e nos Parangolés de Hélio Oiticica, que tiram a passividade do observador.

 

'A besta-fera antropófaga brasileira, ininteligível e em constante metamorfose', por Gonca
Adriana Varejão – Pele Tatuada à Moda de Azulejaria (1995)

 

 

'A besta-fera antropófaga brasileira, ininteligível e em constante metamorfose', por Gonca
Nildo da Mangueira vestindo P 15 Parangolé capa 11 – Incorporo a revolta (1967), de Hélio Oiticica. Foto Claudio Oiticica, circa 1968

 

 

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi o Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses”, diz Oswald em trecho do Manifesto Antropófago.

O fato é que buscava-se a concepção de um Brasil, porém como Drummond disse, nenhum Brasil existe, pelo menos não como um conceito unificado. Por isso não se pode definir uma nação senão com o conceito de mistura, como a geleia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia. Está é portanto, nossa sina, encontrarmo-nos na indefinição, vivendo com um constante gosto de sangue na boca.

Macunaíma, embora escrito antes do Manifesto, é um retrato condizente ao povo brasileiro, O herói sem caráter passa suas desventuras aleatórias em constante metamorfose, como um grande compilado do Brasil. De índio, negro, o herói vira adulto, tornar-se branco, transcorre a América do Sul, torna-se francesa, briga e mata, ‘brinca’, sobe aos céus.

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”, escreveu Oswald de Andrade.

Como grande legado oswaldiano, a tropicália exemplifica bem o conceito do movimento antropofágico. A revisão da cultura nacional ministrada com doses da arte internacional feita por, dentre outros, Caetano, Gil, Tom e Mutantes é um verdadeiro banquete. 

 

'A besta-fera antropófaga brasileira, ininteligível e em constante metamorfose', por Gonca
Macunaíma interpretado por Grande Otelo no filme de Joaquim Pedro de Andrade

 

 

'A besta-fera antropófaga brasileira, ininteligível e em constante metamorfose', por Gonca
Caetano Veloso veste P 04 Parangolé, 1968. (foto Geraldo Viola)

 

 

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”, trecho do Manifesto Antropófago.

Esta é a besta-fera antropófaga brasileira, ininteligível e em constante metamorfose.